E... vive-se!

Friio... mas não aquele frio que se sente quando o vento cortante sopra; não aquele frio que congela até os ossos numa madrugada de inverno; e sim aquele frio interior... que ocupa todo um vazio.
Um vazio que não se sabe desde quando está ali, nem de onde veio e se algum dia será preenchido. Um vazio que julgam inexistente e inapropriado.
Um vazio que ecoa os gritos abafados de uma vida sem sentido.
Um vazio que coisa ou pessoa alguma pode preencher.
Um vazio oculto, porém semper à mostra de quem realmente quer vê-lo.
Um vazio controlado e controlador. Como uma doença, corroendo silenciosamente, mas mantida estática por uma razão superior, ainda que um pocuco vaga.
É, pois, o vazio de um corpo com uma alma retalhada. Com pedaços colados por uma camada de dissimulação da dor, da angústia e do medo. Por enquanto, isso somente basta.

Sentir-se...

E não era porque os antigos moradores haviam morrido ali. Nem porque o último quarto era escuro e vazio. Também não era porque todos dormiam cedo e, definitivamente, não era porque o banheiro ficava distante. Nem ela sabia o porquê daquela sensação, mas ela a sentia. E de tal forma que as pernas pareciam travar-se. Com algum esforço, levantava-se e ia; acendendo uma após outra, todas as luzes da casa. Mas a sensação estranha permanecia lá, mesmo com as luzes. E ela voltava, quase a correr. Ela não se lembrava, mas aquela sensação a acompanhara desde sempre; e não questionava-se o porquê de a sentir mas, lá no fundo, no seu íntimo sabia. Sabia que sentia-se infinitamente só. Mas não somente agora, no escuro, enquanto todos dormem. Não só a noite. Mas sempre. É que no escuro, e no silêncio, nossos medos desafloram.